Fanny – fragmentos de um discurso amoroso

Razões várias levaram-me a passar ao lado de grande parte da segunda edição da Casa dos Segredos, uma estimulante iniciativa com que a TVI abrilhantou o serão de inúmeros portugueses durante o Outono/Inverno de 2011. Tendo acordado tarde para o fenómeno, fui ainda a tempo de me deixar cativar por algumas das mais carismáticas personagens da cultura de massas contemporânea, mistos de arquétipo e alegoria de qualquer coisa que neste preciso momento se furta a uma definição, mas que arrisco considerar decisiva para decifrar esse grande enigma que é a paz social em Portugal.

Não tenciono falar aqui do glorioso episódio de pretenso sexo oral sob o édredon, que tanta tinta fez correr, de Sagres a Vila Nova de Cerveira. Registei contudo que o mais insólito do assunto parecia ser, a julgar pela frequência com que isso era sublinhado na imprensa de referência,  o facto de o sujeito passivo felacial ser um “pasteleiro”, como se o assunto tivesse qualquer coisa que ver com massa folhada e creme de ovos. Tratou-se, em todo o caso, de uma inestimável contribuição para devolver aos pasteleiros e outras categorias profissionais subalternas o estatuto de actores históricos que é seu de pleno direito.

Fascinou-me muitíssimo mais a percepção mal (ou nada) dissimulada pelos protagonistas (chamemos-lhes assim) relativamente à sua imagem, às oportunidades que o programa lhes proporcionaria, às suas ambiciosas carreiras (televisivas, empresariais, musicais, etc.) e à sábia gestão estratégica dos mecanismos de selecção a cargo do «público». Pareciam todos, do mais boçal à mais bimbalhona, saídos de um curso de marketing televisivo. O programa foi uma espécie de viveiro de talentos artísticos, culturais, mediáticos, profissionais e outros, um dos mais poderosos mecanismos de mobilidade social ascendente promovido pela televisão portuguesa em democracia (exactamente). Mas poucas coisas me tinham preparado para a fulgurante aparição de uma das mais polémicas e controversas (isto parece redundante, mas está muito longe disso) concorrentes, cujas paixões e iras deixaram em suspenso «os portugueses».
Fanny (sim, eu sei) começou por juntar a sua voz à de Marante, essa espécie de contra-baixo vocal que para sempre cativou os ouvidos e os corações de tudo e todos com temas como «Meu querido mês de Agosto» ou «A bela portuguesa». Note-se que nesta altura ainda a rapariga não tinha feito do seu corpo a pujante máquina estética que viria a ser, quando recorreu às mais avançadas práticas cirúrgicas para se passar a sentir, e cito, «uma brasa». Mas já então resistia ao pedante elitismo de Manuel Luís Goucha, permanecendo inalterável e igual à rapariga bem disposta e simples que sempre foi, chegada da Suíça para encantar os teleespectadores lá em casa. Fanny não se deixou intimidar e acompanhou com brilho, ao vivo e sem pleibéque, um dos temas maiores da discografia dos Diapasão, dedicado, de resto, a um elemento recorrente da cultura portuguesa. A sua voz de desenho animado infantil fundiu-se à poderosa caixa toráxica de Marante com estilo, brilho e elegância.

Ali mesmo, anunciou a sua recente colaboração com o FredFox, um jovem produtor e MC, numa música que podemos ouvir, «na internet».  E como estamos precisamente na internet, aqui está ela, a canção que incendiou corações e vontades durante todo o inverno/primavera de 2012.

Para os mais desatentos, que, talvez por desconhecimento, possam pôr em causa a conveniência desta parceria, fiquem apenas a saber que o FredFox é um desses jovens portugueses que não se resignaram nem aceitaram ficar na sua zona de conforto, tendo partido à conquista do mundo armado apenas com o seu talento, esforço e ambição, como fica ampla e cabalmente demonstrado em momentos como este. Em «Ai, ai», Fanny explana aquele que será um dos temas recorrentes no seu imaginário poético, a saber, o calor. Neste caso, o calor que tem para dar. Trata-se de uma canção de amor, como o leitor não terá dificuldades em perceber, na qual sobressai o clima intenso que rola entre os dois.

O Fred, esse tortuoso dom Juan da batida, não tem qualquer problema em dizer ao que vem, conjugando em poucos versos o que mais lhe agrada na Fanny, por ordem de preferência: o «bum bum» dela deixa-o crazy, ela dá bem para ele porque é famosa e, finalmente, tem cara de safada. Pouca gente é tão honesta e frontal num primeiro encontro e foram certamente as suas palavras doces que cativaram esta rapariga simples (nunca é demais repeti-lo), farta de ser enganada por rapazes bonitos mas estróinas.

Por outro lado, para além de valorizar a índole sincera do seu novo parceiro, Fanny parece igualmente cativada pelo seu porte físico. Pois não nos diz ela, logo no terceiro verso e muito antes de ele lhe abrir o coração, que está a ferver ao ponto de nem querer dançar? Acresce a isto um outro tema recorrente em Fanny, o dos lábios, que ora se provam ora se seguem, num incessante movimento que nos remete para a imagética da pista de dança e dos inúmeros jogos de sedução que ela abriga no seu seio.

Finalmente e apesar (nunca é demais repeti-lo) de Fanny saber bem o que significa ser usada e abandonada como um farrapo velho, fica de pé a possibilidade de um reencontro, que faça desta mais do que uma noite de sexo casual entre tantas outras. Embora seja uma mulher moderna, incapaz de ficar a aguardar um telefonema no dia seguinte, Fanny sabe que os momentos especiais são aqueles que ficam e deseja voltar a vê-lo.

E o que é que tornou a noite tão especial, perguntarão vocês? É difícil penetrar assim na intimidade de dois corpos que se encontram e, no seu encontro, se cumprem. Mas é possível supor que foi a maneira como Fred desbloqueou o impasse inicial na pista de dança que lhe reservou um lugar especial nas recordações de Fanny. Não só domina o inglês técnico, o que é sugerido pelo uso da expressão romântica «baby», como resolve logo o problema ontológico relacionado com o início e o fim de cada coisa, sussurando-lhe (como sugere a onomatopeia «chuu»): “vieste com amigas mas sais comigo daqui”.

E agora, o tema que tem dominado as mais variadas pistas de dança durante este Verão. Ainda que não nos seja dado a saber o que aconteceu com FredFox, parece lícito concluir que é uma história resolvida. Fanny partiu para outro. Na verdade, Fanny iniciou uma nova fase, da sua vida como da sua carreira, em que já não está preocupada com este ou aquele rapaz, porque sabe perfeitamente que não faltam peixes no mar e a vida passa num piscar de olhos.

Sem se desviar um centímetro do imaginário de libidinosa sensualidade que lhe está associado, percebe-se aqui a vontade de dar o salto, passar a outra divisão, alimentar outras ambições. A produção melhorou. A vida melhorou. E o parceiro melhorou imenso (não desfazendo). Fanny permanece a mesma, mas algo nela mudou. Está mais solta e mais madura, sabe o que quer e não tem medo de o dizer, alto e em bom som. É possível argumentar ser esta uma música muito pouco original. Mas isso não é tão engraçado como proceder relativamente a ela como a qualquer outro objecto cultural do nosso tempo. A hermenêutica é aqui bem empregue. Vejamos.

Emancipada, Fanny não deixa por isso de ser uma rapariga chegada à família e, nomeadamente, ao pai, que sempre a apoiou. Nos primeiros segundos deste videoclip, podemos vê-la partir ao encontro do amor no descapotável paterno, ansiosa por chegar e arrasar, confirmando no espelho retrovisor a sua brasice, antecipando já o que serão as próximas horas de vida louca. Canuco (Zumby?) chega e a terra treme. A língua é o castelhano, sem razão aparente que não o facto, incontestável, de soar melhor.

Atencioso, Canuco começa por inquirir acerca dos desejos da sua parceira. E ela responde, na melhor tradição de diva, presenteando-o com um sorriso luminoso e um olhar enigmático: yo quiero vida loca. O pormenor dos óculos chegaria para tornar esta uma das melhores sequências videomusicais da cultura portuguesa recente. Note-se contudo o trabalho de câmara, que nos mostra os dois amantes ora de frente ora de lado, campo e contra-campo alternando-se ao sabor do jogo da sedução. O resto são dois corpos que desfrutam a liberdade, gozando a sua juventude irrequieta e levando até ao limite a poderosa pulsação contida na batida. Nunca um Verão pareceu tão intenso.

A poesia da canção não é menos sugestiva. Se Fanny vira irredutivelmente as costas às convenções sociais e aos diversos tabus que herdou de uma cultura judaico-cristã apostada na dessexualização do corpo feminino, proclamando o culto pagão do sol, da praia e do prazer etílico, Canuco optou por uma aproximação mais calórica, espécie de versão «pasteleira» (o círculo fecha-se) do cântico dos cânticos. Chamando-lhe a sua «bomboca» e nomeando o açúcar no seu corpo (deixando em suspenso a questão de saber se dentro ou fora), ele confessa-se dependente dela, invertendo os papéis de género tradicionais enquanto pisca o olho a uma abordagem petrarquiana do amor.

Fanny é aqui uma espécie de Laura desdramatizada, cuja abrupta emancipação tornou desnecessário o sofrimento do eu poético, actualizando-o e convertendo-o em máquina desejante. Provocando-lhe angústia por não estar quieta e por «dar de esperta», a aparente inacessibilidade de Fanny exige de Canuco que supere todas as provas. Por ela, ele será o rei da colmeia, o seu borracho, o dono do pedaço, capaz de lhe sussurrar ao ouvido e «dar beijo na boca», como prelúdio do resto, ou seja, do amasso. Note-se o contraste: ela não ambiciona mais do que beber até cair e andar na gandaia. Mas ele está louco de desejo e disposto a tudo (tudo) para a ter. Vida louca, mundo ao contrário: tudo isto nos fala de um novo discurso amoroso, anuncia uma nova época, antecipa a comunidade que vem. Está tudo contido naqueles movimentos de ancas e no vai e vem do busto de Fanny, incontornável metáfora dos altos e baixos da paixão e do desejo.

Nunca um ritual de acasalamento se revelou tão carregado de densidade e alcance simbólico. Nunca isso foi tão irrelevante. Se a ti te gusta, a mim me encanta.

a minha vénia ao escriba

Dokkōdō

  1. Accept everything just the way it is.
  2. Do not seek pleasure for its own sake.
  3. Do not, under any circumstances, depend on a partial feeling.
  4. Think lightly of yourself and deeply of the world.
  5. Be detached from desire your whole life long.
  6. Do not regret what you have done.
  7. Never be jealous.
  8. Never let yourself be saddened by a separation.
  9. Resentment and complaint are appropriate neither for oneself nor others.
  10. Do not let yourself be guided by the feeling of lust or love.
  11. In all things have no preferences.
  12. Be indifferent to where you live.
  13. Do not pursue the taste of good food.
  14. Do not hold on to possessions you no longer need.
  15. Do not act following customary beliefs.
  16. Do not collect weapons or practice with weapons beyond what is useful.
  17. Do not fear death.
  18. Do not seek to possess either goods or fiefs for your old age.
  19. Respect Buddha and the gods without counting on their help.
  20. You may abandon your own body but you must preserve your honour.
  21. Never stray from the way.

 

Economia paralela: a melhor arma está nas nossas mãos

A predisposição portuguesa para a fraude (?)

Imagine a Torre dos Clérigos, no Porto, com os seus 75 metros de altura. Continue a imaginar: chegue-se junto à torre e coloque, no chão, uma nota de 100 euros. Seria um disparate comparar a altura da torre com a da nota deitada no chão, não é? Coloque outra nota de 100 euros por cima daquela. E outra. E mais outra. Vá empilhando notas de 100 euros até a pilha atingir a altura da torre. Em 2007, o académico alemão Friedrich Schneider estimou que o valor da economia paralela em Portugal corresponderia a uma pilha de notas de 100 euros praticamente da altura da Torre dos Clérigos - o valor que parte dos portugueses subtraem anualmente aos restantes. Não é fácil percebermos a verdadeira dimensão destes números mas, para podermos ter uma ideia, há poucos anos estimou-se que se a economia paralela pagasse impostos, seria o suficiente para Portugal deixar de ter défice orçamental. Sim, esse défice que tanto nos tem atormentado... 

Mas os últimos números mostram que, afinal, a altura da Torre dos Clérigos é insuficiente…

Em Outubro de 2009, noticiava-se, em Espanha, que, de acordo com estimativas do mesmo académico, Espanha, Itália e Grécia eram os países da OCDE “recordistas” da economia subterrânea, com Espanha à cabeça, com um valor equivalente a 18,7% do PIB.

O mais recente estudo publicado em Portugal (também em Outubro de 2009) - que, na verdade, foi o primeiro estudo consistente realizado especificamente sobre a economia paralela portuguesa -, devia, no entanto, fazer-nos corar de vergonha: no mesmo ano (2008), estima-se que a economia paralela rondava, na nossa fraudulenta terrinha, os 30 mil milhões de euros, o correspondente a cerca de 23% do PIB – e este número deverá ter crescido em 2009 e em 2010, com o agudizar da crise económica.

Ressalvada uma estagnação nos números negros no período entre 2000 e 2007 (21,5% do PIB), a economia paralela em Portugal tem crescido continuamente, desde os 13% do segundo semestre de 1982 até aos alarmantes 23% atuais.

Mas mesmo estes 23% são uma estimativa por baixo. Segundo o Presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude, os 23% não incluem as atividades ilegais (droga, prostituição, jogo, etc.) e dizem essencialmente respeito à economia paralela de fuga ao fisco: o valor real será ainda mais elevado.

O valor da economia paralela em Portugal é 2,6 vezes o dos Estados Unidos, 2,3 vezes o do suíço, 1,8 vezes o do Reino Unido...

Vários estudos têm revelado inequivocamente que os traços culturais dos portugueses “são mais propícios à aceitação e realização da fraude”. Nada de que nos devamos orgulhar…


O que é a economia paralela?

Mesmo que não tenhamos uma verdadeira consciência do quanto ela nos prejudica, todos temos uma noção básica do que é a economia paralela. Desde o taxista, advogado, pintor, carpinteiro, eletricista ou sapateiro que não passa recibos pelas remunerações que recebe, até ao dinheiro cobrado num café ou num restaurante por uma refeição que não é registado contabilisticamente e, por conseguinte, oficialmente é como se nunca tivesse sido recebido, passando por muitas outras realidades, como declarar ao fisco menos rendimentos do que aqueles que se receberam (com ou sem recibo), não entregar ao Estado o IVA que se recebeu, ter um empregado cuja remuneração se declara em parte e se oculta na outra, ou que se oculta mesmo na totalidade (empregado não declarado), para fugir aos pagamentos à Segurança Social, a falsificação de faturação para obtenção de vantagens fiscais, etc., a economia paralela abrange várias realidades de que todos já ouvimos falar.

Há o indivíduo que exerce uma atividade registada (advogado, dono de café, feirante, etc.), mas que, mediante estratagemas diversos, consegue declarar apenas parte dos rendimentos por ela gerados. Os estratagemas utilizados podem ser mais simples (não passar recibo ou fatura) ou mais sofisticados (programa informático ao serviço da fraude).

Temos, depois, o facto de sermos um “país de desenrascas”. Que começa naqueles que têm uma profissão “oficial” (fiscalmente registada) e depois têm uns “biscates por fora”, pelos quais muitas vezes obtêm rendimentos superiores aos daquela profissão – e que não são declarados. E, no último nível da escala, temos os "clandestinos", que, oficialmente não têm rendimentos, alguns aproveitando-se mesmo desse facto para – o cúmulo da chico esperteza - ainda receberem apoios sociais do Estado (que somos nós todos que pagamos)...

Muitos – os chamados “desenrascas puros” – vivem totalmente à margem do fisco porque não têm sequer (nunca tiveram ou já não têm) licença legal para exercer a respetiva atividade (de mecânico, de eletricista, de médico, de advogado, de construtor, etc.).

Outros indivíduos não poderiam sequer obter essa licença, por ser ilegal a atividade a que se dedicam (comercialização de droga, jogo ilícito, etc.).


Efeitos na economia

Sobretudo em países mais desenvolvidos como Portugal, a economia paralela não é necessariamente nociva para o crescimento da atividade económica.

Com efeito, qual o destino dado aos rendimentos gerados na economia paralela? Em grande parte, são reinvestidos na atividade económica “clandestina”, o que pode resultar num aumento da produção de bens ou serviços [o que, por seu turno – efeito negativo -, faz crescer a economia paralela…], ou gastos na compra de produtos ou serviços, incrementando as transações comerciais. Sendo a economia oficial maioritária em Portugal, a maior parte deste gasto será feito em bens ou serviços de empresas da economia oficial (um televisor LCD, um carro, uma casa, uma cirurgia estética), contribuindo, assim, para o desenvolvimento destas.

Mas seria precipitado concluir que então, afinal, a economia paralela não é prejudicial.

Isso é pura ilusão, que se desfaz num instante com este exemplo: imagine que um dia lhe assaltam a casa e lhe levam o recheio todo e ainda o automóvel que estava estacionado na garagem. Imagine que os gatunos, com o produto da venda dos bens roubados, compram bens e serviços produzidos na economia oficial (uma casa, uma aparelhagem, um carro de alta cilindrada….). A atividade económica não terá sido prejudicada e até pode ter saído beneficiada. Mas o certo é que foi roubado e ficou sem os seus bens… Com a economia paralela passa-se o mesmo, apenas com a diferença de muitos de nós não termos a perceção de estarmos mesmo a ser roubados...

Por outro lado, a economia paralela distorce a concorrência económica. Imagine que explora um café. E que eu tenho um café na mesma rua. Mas que a minha atividade é, em grande parte, clandestina: através de estratagemas diversos, consigo fugir ao fisco e à segurança social – grande parte do meu negócio não é declarado. Com o dinheiro que poupo, consigo, por exemplo, praticar preços imbatíveis e melhorar substancialmente o serviço, prejudicando-o a si, que prossegue a sua atividade honestamente e cumprindo as suas obrigações legais. No limite, o seu café pode ir à falência, enquanto o meu prospera. Mesmo que não chegue a esse limite: os seus custos operacionais são superiores aos meus, não porque eu seja uma melhor gestora, mas por causa da fraude a que me dedico, causando uma distorção intolerável na concorrência.

O que se diz de um café, pode dizer-se de um eletricista, de um taxista, de um advogado ou de um pintor, só para citar alguns exemplos: a economia paralela está bastante disseminada…


Em que é que a economia paralela me prejudica?

A economia paralela é causa de grave injustiça social.

Uma das consequências diretas é a diminuição das receitas do Estado [mesmo que parte do rendimento clandestino seja gasto na economia oficial, só uma pequena parcela da receita fiscal perdida é que é, por essa via, “recuperada”].

Se estivermos a falar nas receitas da Segurança Social, o que está em causa é o bolo de onde mais tarde vai sair o pagamento da sua pensão de reforma.

Se estivermos a falar da receita fiscal, não é difícil perceber que todos somos prejudicados, porque aquilo que o Estado não recebe destes indivíduos, pagamos nós do nosso bolso. Algo que poderia, em termos grosseiros, ser explicado através deste exemplo: se o Estado constrói uma estrada, como somos menos a pagá-la (graças aos que fogem ao fisco), o custo que cabe a cada um de nós pagar é maior do que aquele que pagaríamos se essa fraude não existisse.

Já ouvi gente a vangloriar-se de não pagar impostos e de justificar essa sua atitude anti-social com o facto de, por um lado, "não obter nenhum benefício do Estado" e, por outro lado, o dinheiro dos impostos ser "mal aplicado".

Mas não há quem neste país não seja beneficiado pelo Estado. Desde o momento em que se põe o pé na rua: a rua, a estrada na qual conduzimos, a iluminação pública, a segurança pública, tanta coisa!; e mesmo sem pôr o pé na rua: o coletor de esgotos, a recolha dos resíduos domésticos, a rede pública de energia…; desde que se nasce que se está a beneficiar do Estado! Aqueles que fogem ao fisco estão a beneficiar de serviços para os quais não contribuem. Não é diferente de entrar num restaurante, comer e sair sem pagar a conta.

A economia paralela gera um círculo vicioso. A diminuição da receita fiscal causada pela economia paralela conduz a uma situação em que o Estado tem menos dinheiro para gastar. Nesse circunstancialismo, ocorre normalmente o corte de benefícios sociais e de obras em benefício da comunidade, o que, por seu turno, acarreta o aumento da sensação de que o dinheiro dos impostos é mal gasto, cenário propício a… um aumento da economia paralela. Significa isto que aqueles que fogem ao fisco por acharem que o dinheiro dos impostos é mal aplicado são precisamente dos que mais contribuem para a situação de que se queixam...

Por outro lado, aqueles que honestamente cumprem as suas obrigações fiscais são, precisamente, os que acabam por suportar um aumento da carga fiscal, devido à fuga ao fisco dos outros. Ora o aumento da carga fiscal é, precisamente, um dos fatores que mais leva as pessoas a entrar na economia subterrânea: mais um círculo vicioso...

Por fim, tendencialmente, aquele que foge ao fisco, se tiver empregados ao seu serviço, descurará as suas condições de trabalho e cortar-lhes-á o acesso aos direitos e regalias a que os trabalhadores têm, por lei, direito. Mais injustiça social. Por seu turno, aqueles que, tendo trabalhadores ao seu serviço, cumprem as suas obrigações fiscais, por terem custos operacionais superiores têm mais dificuldade em melhorar as condições de trabalho e remuneratórias dos seus empregados. A economia paralela é uma das grandes causas das deficientes condições de trabalho existentes em Portugal.

Globalmente, como se vê, o efeito é o de um país mais injusto, com maiores desigualdades sociais e económicas. O que contribui para baixar ainda mais os nossos níveis de auto-estima, que já não são nada famosos... 

Se a isto acrescentarmos o facto de algumas destas pessoas ainda pedirem ao Estado benefícios sociais (rendimento social de inserção, subsídio de desemprego e outros), por não declararem rendimentos (ou declararem poucos), tudo devia deixar-nos suficientemente chocados para nos levar a fazer alguma coisa...


O que podemos fazer?

...porque de facto podemos fazer alguma coisa. Todos nós. Não podemos acabar com a economia paralela, mas podemos ter uma contribuição importante para a reduzir substancialmente. Não se limite a queixar-se do Governo: faça alguma coisa - também depende de si!

Além de divulgar este artigo, o que nunca deve deixar de fazer é solicitar sempre a fatura (quando exigível) ou, no mínimo, o talão de caixa, do qual conste o nome e número fiscal do vendedor ou prestador do serviço, o produto vendido ou serviço prestado e o preço, com indicação da taxa de IVA. Quando abdicamos do documento comprovativo, o vendedor ou o prestador de serviço pode ou não registar na sua contabilidade o preço que pagámos e, se não registar, é como se ele nunca tivesse existido: entra diretamente para os bolsos do indivíduo e dele não é pago um cêntimo de imposto. Pior: o IVA que pagámos (por um café, por um bolo, por um almoço...) também vai para os seus bolsos, em vez de ser entregue ao Estado. Na prática, estamos a pagar impostos (o IVA) a estes indivíduos!

Noutro tipo de casos – prestadores de serviços a recibos verdes -, é mais difícil convencer os utentes dos serviços, que tenderão a pôr o seu interesse individual à frente. Se pedir uma fatura / talão de caixa não nos custa nada (sendo incompreensível que muita gente não o faça), quando pedimos um recibo a um advogado, a um eletricista ou a um pedreiro, já sabemos o que nos espera: “eu posso passar recibo, mas assim terá de pagar o IVA”. E quantos desistem do recibo para não terem de pagar o IVA?

A verdade é que, se não exigirmos o recibo, estamos a ser verdadeiros cúmplices de uma fraude. E, embora julguemos que ficamos a ganhar (o valor do IVA que não pagámos), na realidade isso não passa de uma ilusão: vamos é ficar a perder, não só porque vamos acabar por pagar o imposto a que o outro escapou ludibriando o Estado, como ainda estamos a alimentar um sistema económico subterrâneo que é, como vimos, muito danoso, que conduz a um país ainda mais injusto e que, em última análise, nos vai prejudicar ainda mais, com a agravante de ser uma pescadinha de rabo da boca difícil de controlar.
[Lembre-se também que pedir recibo tem outras vantagens: fica com uma prova do pagamento, com base na qual pode reclamar do bem defeituoso que comprou ou do serviço que foi mal prestado e lhe causou prejuízos. Lembre-se de que "o que é barato muitas vezes sai caro"...]

Tenha também em conta que o pagamento em dinheiro é suscetível de não deixar rasto, ao contrário do que sucede com o pagamento com cartão (de débito ou de crédito) ou com cheque.

Habitue-se, por fim, a “boicotar” comerciantes ou prestadores de serviços que habitualmente não entregam recibo, fatura ou talão de caixa - mesmo que aquele café seja muito bom, naquele restaurante da praia se coma muito bem ou aquele eletricista seja mais barato...

Estes indivíduos dependem dos seus clientes para desenvolverem a sua economia subterrânea. Esses clientes sou eu, é o leitor, somos todos nós. A arma mais eficaz contra esta praga que nos envergonha a nós, portugueses, somos nós que a temos. Não a desperdicem!

O especialista em gestão de fraude José António Moreira sugeriu recentemente que, na nota de liquidação do IRS que anualmente todos recebemos em casa, fosse inserida uma linha com indicação do valor que tivemos de pagar a mais de imposto para compensar o que estes indivíduos não pagaram. A ideia é excelente: é necessário compreender que acaba sempre por sair do nosso bolso. Do bolso de quem já paga impostos, enquanto os que vivem na economia subterrânea nada pagaram - e, quem sabe, alguns talvez estejam neste momento a sorrir, a passar umas ricas férias com o dinheiro que nos subtraíram…

Dado que o valor da economia paralela corresponde, numa estimativa por baixo, a quase 1/4 do PIB, parta do princípio de que do valor total dos impostos que paga, um quarto não pagaria se não existisse a economia paralela. Um quarto, não se esqueça...

 

via Blog A nossa terrinha